BRASILEIRO BRUNO SANTOS CONQUISTA O CAPÍTULO PERFEITO NOS TUBOS DE CARCAVELOS

terça, 24 fevereiro 2015 |

Assim que a buzina tocou, Bruno Santos apontou para o céu. Foi assim que comemorou o triunfo acabado de alcançar, prestando uma clara homenagem ao amigo e compatriota Ricardo dos Santos, tragicamente desaparecido no mês passado, depois de ser brutalmente assassinado junto à sua casa na Guarda do Embaú. Bruninho esteve em Carcavelos depois de ficar com a vaga de Ricardinho e honrou de forma perfeita o malogrado tube rider brasileiro.

Numa final recheada de grandes nomes e com as melhores ondas de todo o campeonato, Bruno Santos levou a melhor frente a um trio português composto por Nic von Rupp, Tiago Pires e Ruben Gonzalez. Na estreia de surfistas internacionais neste evento especial de tubos, acabou por ser um brasileiro a levar a melhor, depois de uma prestação dominadora e que reflete bem o estatuto deste surfistas como um dos melhores e mais experientes tube riders do surf mundial. Ao subir ao pódio, o brasileiro foi ainda surpreendido pela organização ao receber o cheque da vitória de 10,000 euros, valor inicialmente situado nos 7500.

Decisão acertada

Depois de ter começado na sexta-feira e de o vento ter acabado por trair a organização, a decisão de parar a prova e recomeçá-la apenas esta terça-feira revelou-se acertada. Depois de uma manhã com bastantes atividades na água, uma Expression Session era o primeiro sinal do espetáculo a que se iria assistir quando as meias-finais entrassem na água.

Embora os tubos perfeitos tenham demorado um pouco a aparecer, Bruno Santos foi o primeiro surfista a encontrá-los, dominando a primeira meia-final do dia, que venceu com 13 pontos. Tiago Pires acabaria por também garantir a vaga na final, depois de uma luta renhida com o jovem Miguel Blanco, sendo que Rodrigo Herédia terminou no 4.º posto, despedindo-se assim das competições, uma vez que decidiu pendurar a lycra após este evento.

Na segunda meia-final o espetáculo começou a aumentar de nível, muito por culpa da melhoria das ondas e também pela prestação de Ruben Gonzalez. O recordista de títulos nacionais foi um dos surfistas mais atirados do evento e começou o dia com 16,25 pontos, ficando mesmo à frente de Nic von Rupp (14,75). Filipe Jervis e Marlon Lipke ficavam ambos pelo caminho, sendo que já estava assim definida a composição da final.

Experiência... mas não em Carcavelos

Com um currículo bem recheado de sucessos, onde se inclui uma vitória numa etapa do WCT em Teahupoo, Bruno Santos chegou a Portugal fazendo-se valer do factor experiência. Contudo, e apesar de já ter estado inúmeras vezes em Supertubos, o brasileiro nunca tinha surfado em Carcavelos. Um paradoxo entre a experiência da sua carreira e a inexperiência de nunca ter surfado o pico do campeonato. Mas nem isso o travou, e prevaleceu mesmo o primeiro parâmetro...

Bruninho começou a final a todo o gás e ainda nem os rivais tinham aquecido já ele tinha duas notas na casa dos 9 pontos. Duas longas esquerdas, mais do lado esquerdo da praia, que só mesmo um especialista e surfista versátil como ele conseguiria completá-las, deram-lhe uma vantagem bem confortável de 18,65 pontos. O trio português tinha assim de correr atrás do prejuízo.

Nicolau passou este último dia quase sempre sozinho mais do lado direito da praia. Foi lá que apanhou inúmeros tubos na meia-final. Verdadeiras bombas, mas onde nunca conseguiu ficar totalmente deep. E foi já perto do final da primeira metade desta final de uma hora, que o surfista da Praia Grande encontrou A onda do campeonato. Uma saída bem na frente do bafo valeu-lhe 9,75 pontos, a reentrada na luta pela vitória e ainda o prémio para o melhor tubo do evento.

Saca, por sua vez, tentava ripostar, mas nunca conseguiu encontrar saída das maiores ondas que apanhou nesta final. Ruben atirava-se a tudo o que aparecia pela frente, mas também sem muita sorte. Nicolau ficava assim a precisar de uma onda de 8,91 para dar a volta e pela frente ainda havia mais de 30 minutos de heat. Foi então que Bruno Santos decidiu aproximar-se de Nic von Rupp no pico. Uma marcação cerrada que durou quase até final.

Última cartada

Com a bateria a acalmar na última metade, Nicolau não conseguia encontrar a onda que faltava e decidiu jogar uma última cartada: o surfista português pediu a ajuda da mota de água para mudar de pico, deslocando-se mais para a esquerda da praia, onde iria tentar encontrar a onda da vitória nos 5 minutos que faltavam. Pelo caminho deixou Bruno dos Santos que teve de ir atrás do adversário a remar...

Apesar do esforço que fez para tentar revalidar o título deste evento pela terceira vez consecutiva, e depois de sofrer um brutal wipeout já nos últimos minutos, Nic Von Rupp (13,75 pontos) não conseguiu dar a volta à final. Tiago Pires (12,75) e Ruben Gonzalez (7,45) nunca chegaram a conseguir sair de combinação, apesar da determinação que mostraram em tentar fazê-lo, terminando no 3.º e 4.º posto, respetivamente.

Assim, a festa era brasileira nesta quarta edição do Allianz Capítulo Perfeito. Mas, antes disso, havia que dedicar esta impressionante vitória ao amigo Ricardo dos Santos. Braços bem erguidos em direção ao céu, em memória de um nome que nunca deixou de ser falado e lembrado ao longo dos dois dias de prova. Uma vitória que não sabemos se teve algo de divina, mas que foi justa e merecida. Bruninho provou que a decisão de incluir surfistas internacionais no evento, assim como a de adiar o final para hoje fizeram jus ao nome do evento: foram perfeitas.

Para final de festa, Tiago Pires, que deixou Carcavelos com o seu quiver bastante reduzido, foi ainda distinguido com o prémio Ricardo dos Santos, que premiou o surfista com mais atitude ao longo da competição. O melhor score foi para Bruno Santos com a prestação da final, Nic von Rupp venceu o melhor tubo, o local Edgar Nozes conquistou a Expression Session, Filipe Jervis protagonizou o wipeout do evento e, por fim, Francisco Alves protagonizou o melhor claim do evento.

Para Ricardinho

Para Bruno Santos este foi um triunfo bem especial, pois, como já dissemos, fez questão de o dedicar a Ricardo dos Santos. "Na verdade entrei no lugar do Ricardo e foi um prazer representá-lo durante o evento inteiro e trazer um pouco do espírito dele. Não posso dedicar a outra pessoa que não a ele e aos familiares dele", começou por dizer-nos. "O Nicolau encontrou a melhor onda da bateria e achei melhor ficar perto dele e não deixá-lo muito solto, porque sei do potencial dele e da facilidade que tem em encontrar tubos em qualquer mar. A estratégia acabou por dar certo. No final ele mudou de pico, veio uma onda animal mas ele caiu e, graças a Deus, deu tudo certo para mim. Essa vitória é para o Ricardinho", frisou o surfista brasileiro.

"As condições estavam bem difíceis. Aquele tubo no início da final foi o melhor tubo que fiz em todo o evento. A onda era bem grande, dava a sensação que ia fechar e quando saí fiquei amarradão e comemorei muito. Deu sorte porque a seguir veio a segunda, que foi um pouco mais limpa. Este é o tipo de campeonato que gosto, de tubos. A etapa de Peniche é essencialmente tubular, mas nem todos os dias os tubos aparecem. Aqui temos dois meses para esperar por um dia especial. A organização teve a decisão de mudar e deu certo. Estou muito feliz e tomara que seja convidado novamente no próximo ano", terminou Bruninho.

O campeão de 2013 e 2014 teve de ceder assim o trono a Bruno dos Santos, mas nem por isso Nic von Rupp ficou desapontado com a sua prestação. "Obviamente que gostava de ter vencido", começou por confessar-nos Nic von Rupp. "Afinal há duas sem três (risos). Mas estou contente, pois penso que ter chegado à final já foi um grande feito. Não ganhei três anos seguidos mas fui três vezes à final. Este evento foi bastante bom e teve muito nível. Tivemos cá o Saca, surfistas internacionais de renome como o Cory Lopez e o Bruno dos Santos. Sinceramente não estou triste, foi uma final bem disputada. Faltou-me outro 9. Tive uma oportunidade no final do heat em que dei o meu melhor mas não consegui agarrá-la. Provavelmente teria feito a diferença...", lamentou.

Nicolau demonstrou ainda estar de acordo com as alterações protagonizadas no evento para este ano. "Acho mesmo que a internacionalização é o caminho certo para este evento. Temos um beach break com potencial mundial e tornar isto numa "guerra de bairro" não justifica o potencial que o campeonato tem. Penso que o mais justo era fazer 50% de surfistas nacionais e 50% de surfistas internacionais e tentar manter o espírito. Acho que o conceito é bom, não houve nenhuma altura do campeonato em que tenha sentido que estava numa competição. Curti todos os momentos do evento e é isso que interessa", afirmou.

 

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